O certo é
que aquela dúvida infeliz estava comendo o juízo de Ernestino , como ferida braba,
havia uma ruma de semanas. Tanto que o velho amofinou, andava mais calado e
mais capiongo pelos cantos, com aquela cara de Sinhá-dona -quem-comeu-meu milho.
Parecia gato assuntando cheiro de
Pittbull. Os amigos mais chegados diziam que nunca o tinham visto daquele jeito.
Nem quando enviuvou de D. Judite, uns
dois anos atrás. E olhe que já lhe pesavam mais de oito décadas no lombo e,
mesmo assim, a perda não lhe pareceu coisa do outro mundo, como de pronto se
imaginaria. Foram mais de cinquenta anos de um casamento de altos e baixos em
que os dois foram sustentando o andor mais pela força do hábito do que pelas
vias da afeição. Os filhos, como inhambu, à medida que foram empenando, levantaram voo e
ganharam o mundo, espalharam-se Brasil afora, tangidos pela esperança inglória
de melhores ares e melhores tempos. D. Judite e Ernestino , já sem muito
combustível no tanque, enfrentaram o destino que lhes bateu à porta: uma
pontinha de terra nas cercanias de Matozinho, uma casinha de campo, uma
roçazinha dessas que anum atravessa de um voo, um açudeco que nem tirava um ano
todo só de seca e um criatatoriozinho: galinhas, carneiros e umas vaquinhas que destilavam o leite mugido da
manhã. A vida terrena dependia mais que
nunca do céu. Ano de inverno farto, abasteciam o paiol prevendo os tempos de
seca futuros. Quando o céu fechava suas torneiras, tinham o kit de
sobrevivência no deserto: o paiol, o poço que dava água rasa , cavado no porão
do açudezinho. A partida de D. Judite
deixou um Adão sem sua Eva no paraíso que lhes restou, aquele em que a árvore
do bem e do mal perecera de sede e de fome.
Ernestino enfrentou com
garra a perda. Vivendo naquelas brenhas, Morte e Vida sempre lhe pareceram
faces de uma mesma moeda. E todo o dia o destino jogava Cara & Coroa. O
passar dos dias, no entanto, lhe foi trazendo uma certeza: a solidão é um
animal feroz. Sentiu-a invadindo seus dias, desbotando sua alma, assim como a
cajarana de-vez fazia com seus dentes em tempos de safra. Depois de uns seis meses, já tinha jurado
seguir o caminho agora sozinho, descobriu que não seria tão fácil. Até os amuos
e os lunduns de Judite faziam-lhe falta. Sozinho, tinha ele que brigar com ele mesmo, chamar
palavrões para a rapaz do espelho e, principalmente, não havia a quem contar a
história nossa de cada dia, como se escrevesse na lousa com a mão direita e já
viesse esfregando o apagador com a esquerda.
Resolveu sair, novamente,
à caça e passou a frequentar a igreja ,
as quermesses e os sambas no pé da Serra do Sabugo. Jogada a rede de malha
fina, uns seis meses depois, viu que tinha no landuá duas curimatãs. Uma
mocinha de uns dezesseis anos, Fideralina, bonita e espevitada, arisca como bico-doce em
talhado de serra. Por falta de melhores partidos e sob influência de
familiares, ela se botou pra cima de Ernestino, imaginando alguma herança e a pensão do Funrural. E, do outro lado, D.
Afonsina , uma sessentona ainda escamurçante, rezadeira afamada de Bertioga,
com fama de desentalar osso de goela de menino e curar picada de cobra pelo
rastro. Afonsina tinha fama de mandona e dizia-se que o marido não a largara,
mas teria desertado pra se livrar das ordens da marechala Afonsa. Ernestino
estava nessa encruzilhada. A quem escolher? A juventude esvoaçante de Fidera ou
as ordens do dia de Afonsina?
Depois do morde daqui
assopra dali com Afonsa e Fidera, as duas começaram o cerca-lourenço por uma
definição do pretendente. Percebendo que
havia disputa e dúvida, então, arregimentaram forças de lado a lado, convocaram
corta-jacas e fofoqueiras de plantão
para espalharem fofocas e disse-me-disse e partiram para luta, cada qual com
seu regimento. Essas eram as razões
pelas quais Ernestino, ultimamente, estava como preá acuado por cão
perdigueiro.
Foi aí que lhe bateu a ideia salvadora. Pedir a opinião do Coronel Anfrízio Maia ,
homem sisudo e pragmático, membro da reserva da Infantaria Nacional e que tinha
sido seu colega no Tiro de Guerra 218 de
Matozinho. Ernestino partiu para a fazenda do coronel com aquela sensação de
faraó que se dirigia ao Oráculo de Delfos. Anfrízio havia sido consultado
previamente sobre a possibilidade de recebê-lo e, como sempre o fazia, em
situações especiais, envergava seu fardão da Infantaria com várias medalhas
dependuradas no peito. Recebeu-o sério ,mas amistosamente, na varanda do casarão na Fazenda Malhada do
Meio. Ernestino, então, lhe pôs a par da situação. Enviuvara e, mesmo já meio
borocochô, tomara a decisão de casar novamente. Estava impossível empurrar o
Jeep da vida sozinho. Apresentou, então, o perfil das duas pretendentes ao
coronel e a dúvida atroz que o assaltava. Casar com a novinha espevitada ou com
a velha passada na casca do alho ? Anfrízio fechou a cara por uns instantes,
fitando o horizonte que se estendia para lá do verdume do canavial, e, depois de alguns instantes, deu seu
parecer:
--- Olhe, Ernestino,
você me conhece e sabe que sou positivo como o cabo direito da bateria. Essa é
uma situação melindrosa e prefiro não dar palpite. Quem lá diabos entende esse
bicho esquisito chamado mulher? Deixo a
escolha e o risco com o amigo ! Boa sorte ! Seja feliz !
Ernestino pareceu meio
desapontado, mesmo assim agradeceu a disponibilidade do antigo companheiro do
Tiro de Guerra. Quando já ia saindo em busca do cavalo cardão que o esperava
arriado no oitão da casa, o coronel o chamou:
--- Ernestino , boa
viagem ! Se lembre rapaz que é muito mais fácil amansar burra nova braba do que
tirar móca de uma égua velha, viu ?
E, enquanto o colega já passava
o pé no estribo, concluiu:
--- De qualquer maneira,
quem avisa amigo é ! Velho como tu tá, com essa cara que parece uma lata de
assar castanha, Ernestino, montando em burra braba ou enfrentando mucica de
égua velha: tu vai cair do cavalo !
Crato, 22/08/24